História de origem · Conhecida em todo o país
Lenda do Guaraná
Também conhecido(a) como Origem do Guaraná, Waraná e Lenda dos olhos do menino
Narrativa sagrada do povo sateré-mawé que atribui o surgimento do guaraná ao sacrifício de uma criança, cujos olhos, uma vez enterrados, deram lugar ao fruto que ainda hoje parece devolver, em sua casca, o olhar perdido.
Narrativa da tradição oral. O texto a seguir registra uma lenda ou tradição do folclore brasileiro tal como ela chegou pela transmissão oral, pela crença popular e pela memória coletiva — não como um relato de fatos historicamente comprovados, mas como patrimônio cultural digno de ser preservado. Em algumas versões, esta narrativa muda de contornos: ao todo, 3 versões diferentes aparecem reunidas abaixo.
Origem
O povo sateré-mawé ocupa, desde tempos que antecedem os registros escritos, a faixa de floresta compreendida entre os rios Tapajós e Madeira, onde se distribuem municípios como Maués e Parintins; é a esse povo, situado entre o Amazonas e o Pará, que se credita tanto a domesticação do guaraná (Paullinia cupana) — chamado em sua língua de waraná — quanto o desenvolvimento das técnicas de plantio e de preparo mais tarde difundidas por outras partes do território brasileiro.
Mais do que simples recurso vegetal, o guaraná funciona, para essa etnia, como alicerce da própria identidade coletiva, tanto que o grupo se designa a si mesmo em referência direta à planta. A narrativa que explica seu surgimento não permanece isolada: entrelaça-se a um conjunto maior de relatos sagrados sobre a formação do mundo, dos clãs e da ordem social, repetidos tanto em contextos rituais quanto no dia a dia da aldeia.
No restante do território nacional, a versão hoje mais conhecida chegou por intermédio de pesquisadores e escritores que, ao longo de décadas, recontaram e publicaram a história em obras dedicadas aos maués. Nesse trajeto de divulgação, certos elementos sofreram simplificação, cedendo espaço a figuras mais próximas do repertório religioso não indígena, o que explica a existência, hoje, de versões sensivelmente distintas de um mesmo núcleo narrativo.
Descrição
Na versão própria do povo sateré-mawé, uma mulher íntima do saber botânico, guardiã de um jardim de encantamento, criava com orgulho um filho muito estimado. Essa afeição, contudo, provocou nos irmãos da mulher um ciúme que não souberam conter; nutrindo hostilidade crescente pela criança, decidiram eliminá-la justamente no momento em que ela colhia castanhas dentro do próprio jardim.
Arrasada pela perda, a mãe recuperou o corpo do filho e, tomada pelo pranto, retirou-lhe os dois olhos para enterrá-los logo depois. Do olho esquerdo, segundo essa tradição, nasceria o guaraná genuíno; do direito, uma espécie desprovida das mesmas virtudes. Antes disso, porém, ela já anunciara que daquela planta haveriam de brotar força e contentamento para seu povo, prometendo ainda que o próprio filho um dia haveria de reviver.
Circula, fora do contexto sateré-mawé, uma versão em que o menino nasce de um casal que ansiava por sua chegada e vem a perecer nas mãos de uma figura convertida em serpente, justamente quando colhia frutos na mata. Ordenado o enterro dos olhos da criança, é dali que desponta o guaraná. Em ambas as linhas da narrativa, o fruto, já maduro — sementes escurecidas envoltas em polpa clara, sob uma casca de tom avermelhado —, reproduz à vista a imagem de um olho.
Características
- Explica, por meio do sagrado, a origem de uma planta essencial
- Atribuída, segundo a tradição, ao povo sateré-mawé
- Tem como ponto central a morte de uma criança e o enterro de seus olhos
- Na aparência do fruto maduro reconhece-se a forma de um olho
- Separa um guaraná tido por genuíno de uma espécie considerada inferior
- Funciona como símbolo de vigor, de saúde e de união entre os parentes
- Admite, lado a lado, uma versão indígena e outra já popularizada
Versões da história
Como ocorre com toda narrativa transmitida oralmente, esta história se transforma conforme quem a conta e o lugar onde é contada; reúnem-se abaixo as versões mais conhecidas.
Sateré-mawé (AM e PA)
Nesta linha do relato, o menino criado por Onhiámuaçabê é eliminado por ordem de tios consumidos pela inveja; ao enterrar os olhos do filho, a mãe dá origem ao guaraná genuíno e à variedade que lhe falta a mesma virtude. O episódio se confunde com a própria formação do povo sateré-mawé, que se vê como descendência direta da planta, ainda que a grafia do nome materno varie conforme quem a registrou.
Versão popular brasileira
Nesta variante, um casal da aldeia roga a Tupã a dádiva de um herdeiro, que cresce querido por toda a gente até ser morto por uma figura convertida em cobra e tomada de inveja. Tupã, então, determina que se enterrem os olhos do menino, de onde desponta o guaraná, fonte de energia destinada a toda a comunidade.
Variantes orais do baixo Amazonas
Há ainda variantes que insistem, sobretudo, na força curativa e revigorante atribuída ao guaraná, por conservar em si um resquício da própria existência do menino sacrificado. Nessas versões, saborear a bebida preparada em cuia equivale a manter acesa sua memória e a estreitar os laços que unem os membros da comunidade.
Significado cultural
Para os sateré-mawé, essa história cimenta o laço entre a comunidade e a planta, servindo de fundamento para rituais, para regras de cultivo e para o costume de partilhar coletivamente a bebida preparada a partir do fruto. Nela, a dor da perda se converte em princípio gerador de vida, padrão que se repete, com variações, em muitas outras narrativas indígenas sobre o surgimento de espécies cultivadas.
Já fora do universo sateré-mawé, essa narrativa foi incorporada como referência de alcance nacional, ligada a uma das bebidas de maior consumo no país. Importa não esquecer, porém, que ela pertence a um povo que continua existindo e cultivando o waraná à sua própria maneira, reivindicando reconhecimento pelo conhecimento que acumulou, ao longo de gerações, sobre essa planta.
Curiosidades
- O povo sateré-mawé reconhece nessa planta parte de sua própria origem e costuma ser apontado como responsável por sua domesticação inicial.
- Maués, cidade amazonense, é reconhecida pela associação com o guaraná e promove, com regularidade, festejo voltado ao fruto.
- A bebida obtida ao ralar o fruto em água costuma circular entre os presentes numa única cuia compartilhada.
- Entre as propriedades atribuídas ao guaraná está um teor de cafeína maior do que o do café, o que lhe garante fama de energizante natural.
Fontes de referência
- Nunes Pereira, Os Índios Maués (1954)
- Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
- Luís da Câmara Cascudo, Lendas Brasileiras (1945)
Este verbete foi redigido de forma original, com base na literatura folclorística disponível sobre o tema. Encontrou alguma imprecisão ou conhece uma versão diferente desta história? Envie uma sugestão.
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