Festa / tradição · Conhecida em todo o país
Folia de Reis
Também conhecido(a) como Reisado, Companhia de Reis, Terno de Reis, Santos Reis e Folia de Santos Reis
Entre o fim de dezembro e o início de janeiro, companhias de foliões visitam casas entoando versos sobre a viagem dos Reis Magos até o Menino Jesus, em troca de donativos.
Narrativa da tradição oral. O texto a seguir registra uma lenda ou tradição do folclore brasileiro tal como ela chegou pela transmissão oral, pela crença popular e pela memória coletiva — não como um relato de fatos historicamente comprovados, mas como patrimônio cultural digno de ser preservado. Em algumas versões, esta narrativa muda de contornos: ao todo, 3 versões diferentes aparecem reunidas abaixo.
Origem
As raízes da Folia de Reis remontam às janeiras e reisadas portuguesas, práticas do ciclo natalino ibérico em que grupos cantavam de porta em porta anunciando o nascimento de Cristo e pedindo donativos. Levadas ao Brasil pelos colonizadores, essas tradições encontraram também na catequese um importante canal de difusão, já que padres se valiam da música e do teatro popular para ensinar a narrativa cristã.
No meio rural brasileiro, onde a prática mais se fixou, a folia absorveu outras heranças culturais: músicos negros e elementos rítmicos afro-brasileiros deram à tradição uma sonoridade própria, enquanto a estrutura organizacional — mestre, bandeira, compromisso de devoção — se consolidava ao longo dos séculos coloniais e imperial. Essa estrutura básica permanece viva em numerosas comunidades até hoje.
O êxodo rural do século XX levou as folias às periferias das grandes cidades, onde migrantes vindos de Minas Gerais, Goiás, do Rio de Janeiro e do Nordeste fundaram novas companhias. Hoje, encontros e festivais reúnem grupos de origens diferentes, e muitos municípios marcam o fim do ciclo natalino com festas realizadas no Dia de Reis.
Descrição
Tradicionalmente, o giro da Folia de Reis começa em 24 ou 25 de dezembro e se prolonga até 6 de janeiro, podendo, em certas regiões, avançar até o dia de São Sebastião, 20 de janeiro. Casa por casa, sítio por sítio, a companhia revive simbolicamente a jornada dos Reis Magos conduzidos pela estrela rumo a Belém, e cada família visitada costuma retribuir com comida, bebida e donativos que ajudam a pagar a festa de encerramento do ciclo.
Nenhum objeto é mais sagrado nesse ritual do que a bandeira, estandarte enfeitado com fitas e flores que estampa, segundo o grupo, imagens ligadas aos Reis Magos, à Sagrada Família ou ao Divino. Levada pelos cômodos da casa num gesto de bênção, ela recebe beijos dos moradores e fitas carregadas de pedidos, enquanto os foliões cantam versos que saúdam os anfitriões, agradecem pela acolhida e pedem proteção para a família.
Entre as figuras da companhia, o palhaço — também chamado de bastião — se destaca pela máscara e pela roupa colorida; em algumas versões, ele personifica os soldados de Herodes, o que explica por que certas regras o impedem de se aproximar da bandeira ou de passar diante do presépio em determinados momentos. Dançando, fazendo acrobacias e declamando versos de improviso, é também ele quem arranca risadas e consegue boa parte das contribuições.
Características
- Mestre e contramestre no comando dos cantos e da organização da companhia
- Bandeira de Santos Reis como principal objeto de devoção
- Palhaços mascarados, conhecidos também como bastiões ou Herodes
- Viola, caixa, pandeiro, sanfona, cavaquinho e rabeca na instrumentação
- Vozes sobrepostas em versos de chegada, pedido e despedida
- Visitas que seguem, casa a casa, do período natalino ao Dia de Reis
- Refeição farta oferecida à comunidade na festa de encerramento
Versões da história
Como ocorre com toda narrativa transmitida oralmente, esta história se transforma conforme quem a conta e o lugar onde é contada; reúnem-se abaixo as versões mais conhecidas.
Minas Gerais e Goiás
Pelo interior de Minas Gerais e de Goiás, é comum que as folias percorram longas distâncias a pé ou a cavalo entre fazendas e povoados, sustentando cantos em várias vozes que chegam a notas bem agudas. Firmada muitas vezes como promessa, essa devoção pode exigir um giro de vários dias seguidos.
Rio de Janeiro e São Paulo
Tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo, essas companhias se mantêm fortes nas periferias das grandes cidades, com palhaços que ganham destaque especial por suas fardas coloridas, máscaras elaboradas e longas declamações. Encontros reúnem, com frequência, dezenas de grupos vindos de bairros diferentes.
Nordeste
No Nordeste, a tradição dos reis se transforma no reisado, folguedo de caráter mais dramático que reúne personagens como o Mestre, o Mateus, o Rei, a Rainha e, em certas localidades, até o próprio boi. Alagoas e o Ceará se destacam por coreografias elaboradas, entremeios cômicos e embaixadas bem marcadas.
Significado cultural
Com cada visita, a tradição revive a história bíblica dos Reis Magos, convertendo-a em uma peregrinação de caráter comunitário: é como se, ao receber a bandeira, a residência se transformasse por um instante no local onde os viajantes guiados pela estrela encontraram o recém-nascido. Essa troca entre canto e oferta reafirma, no fundo, valores como hospitalidade, generosidade e fé.
Há também, na folia, uma escola informal de transmissão oral: desde pequenas, as crianças aprendem versos, toques e funções dentro do grupo, e o posto de mestre tende a passar de pai para filho ao longo das gerações. Nas cidades, essas companhias acabam funcionando como espaços de sociabilidade e de memória para comunidades formadas por migrantes.
Curiosidades
- Para lembrar que os Reis Magos voltaram por caminho diferente ao fugir de Herodes, muitas folias evitam repetir o trajeto da ida no retorno.
- Os palhaços costumam esconder o rosto para não serem reconhecidos, seguindo regras bastante específicas sobre onde podem circular.
- Com o tempo, as fitas amarradas à bandeira acumulam pedidos e agradecimentos de muitos anos de devoção.
- Em diversas cidades, o dia 6 de janeiro marca também o momento tradicional de desmontar o presépio e guardar os enfeites natalinos.
Fontes de referência
- Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
- Mário de Andrade, Danças Dramáticas do Brasil (publicação póstuma, 1959)
- Carlos Rodrigues Brandão, Sacerdotes de Viola (1981)
- Sílvio Romero, Cantos Populares do Brasil (1883)
Este verbete foi redigido de forma original, com base na literatura folclorística disponível sobre o tema. Encontrou alguma imprecisão ou conhece uma versão diferente desta história? Envie uma sugestão.
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