Festa / tradição · Regional
Maracatu
Também conhecido(a) como Maracatu Nação, Maracatu de Baque Virado, Maracatu Rural e Maracatu de Baque Solto
Em Pernambuco, cortejo real e percussão possante se dividem em duas vertentes, o maracatu nação e o maracatu rural, ambas chamadas de maracatu.
Narrativa da tradição oral. O texto a seguir registra uma lenda ou tradição do folclore brasileiro tal como ela chegou pela transmissão oral, pela crença popular e pela memória coletiva — não como um relato de fatos historicamente comprovados, mas como patrimônio cultural digno de ser preservado. Em algumas versões, esta narrativa muda de contornos: ao todo, 3 versões diferentes aparecem reunidas abaixo.
Origem
O maracatu de baque virado, ou maracatu nação, tem origem num costume vindo das irmandades de Nossa Senhora do Rosário: a coroação simbólica de um rei e de uma rainha do Congo, celebrada por africanos escravizados e seus descendentes, ainda no Recife do período colonial. Esses cortejos reais, com o passar do tempo, se transformaram em agremiações autônomas — as nações —, que mantêm até hoje vínculo estreito com terreiros de matriz africana, a exemplo do xangô pernambucano.
Já o maracatu rural, também chamado de baque solto, nasceu entre os trabalhadores da cana-de-açúcar da Zona da Mata Norte pernambucana, sendo considerado manifestação mais recente. Para os pesquisadores, essa vertente herdou traços de manifestações afins — o cavalo-marinho, os caboclinhos, os pastoris —, somando-se a isso heranças africanas, indígenas e europeias moldadas pela vida no universo canavieiro.
Ao longo do século XX, os maracatus enfrentaram perseguição e preconceito, mas também ganharam a atenção de pesquisadores como Guerra-Peixe e Katarina Real, responsáveis por registrar suas músicas e formas de organização. Já nos anos 1990, nomes como Chico Science e o grupo Nação Zumbi, à frente do movimento manguebeat, deram a esses ritmos uma projeção que extrapolou as fronteiras de Pernambuco, alcançando o cenário nacional e internacional.
Descrição
Rei e rainha desfilam sob um grande pálio no maracatu nação, cercados por lanceiros, porta-estandarte, embaixadores, baianas, príncipes, duques e damas de paço, num cortejo que reproduz a estrutura de uma corte real. É a dama do paço quem conduz a calunga, boneca tratada como objeto sagrado que representa entidades e ancestrais, enquanto o baque virado — alfaias, caixas, gonguê e mineiro — sustenta tudo com um som grave e potente.
O maracatu rural segue outra estética, marcada pelo baque solto e por uma pequena orquestra de sopros e percussão. Sua figura mais vistosa é o caboclo de lança, reconhecível pela cabeleira volumosa de fitas de celofane, pela gola bordada de lantejoulas e pelos chocalhos às costas, que corre, gira e executa manobras vigorosas pelas ruas ao som dos versos improvisados pelo mestre.
As duas vertentes ganham as ruas principalmente durante o Carnaval, em Recife, Olinda e cidades da Zona da Mata, caso de Nazaré da Mata, mas a preparação ocupa o grupo o ano inteiro, incluindo rituais religiosos que antecedem a saída às ruas. Na segunda-feira de Carnaval, a Noite dos Tambores Silenciosos reúne nações do Recife em homenagem aos antepassados escravizados.
Características
- Desfile em forma de corte real, reunindo rei, rainha, pálio e porta-estandarte
- Calunga, a boneca sagrada carregada pela dama do paço
- Baque virado tocado com alfaias, caixas, gonguê e mineiro
- Caboclo de lança, símbolo do maracatu rural, com cabeleira de celofane
- Baque solto acompanhado por sopros e versos improvisados
- Vínculo das nações com terreiros de matriz africana
- Apresentações concentradas no período de Carnaval em Pernambuco
Versões da história
Como ocorre com toda narrativa transmitida oralmente, esta história se transforma conforme quem a conta e o lugar onde é contada; reúnem-se abaixo as versões mais conhecidas.
Recife e Olinda (PE)
Recife e Olinda concentram as nações de maracatu, grupos que vão de agremiações centenárias a formações mais novas, todos preservando a estrutura de cortejo real e o baque virado. Estandarte, cores e calunga são exclusivos de cada nação, e boa parte delas segue orientações espirituais de terreiros de xangô para seus preparativos.
Zona da Mata Norte de Pernambuco
Cidades da Zona da Mata Norte — Nazaré da Mata, Aliança, Tracunhaém, entre outras — reúnem, em seus maracatus rurais, um grande número de caboclos de lança, além de baianas e figuras centrais como o Mateus e a Catirina. É na segunda-feira de Carnaval que acontece, em Nazaré da Mata, o tradicional encontro que concentra um dos pontos altos dessa vertente.
Outras regiões do Brasil e exterior
A projeção nacional dos ritmos pernambucanos deu origem a grupos percussivos inspirados no baque virado em várias cidades brasileiras e até no exterior. Mesmo sem alcançar a mesma densidade religiosa e comunitária das nações mais antigas, eles ajudam a difundir a música do maracatu para públicos que, de outra forma, dificilmente teriam contato com ela.
Significado cultural
O maracatu nação carrega, em sua estrutura, a lembrança viva de quando reis negros eram coroados e as comunidades afro-pernambucanas se organizavam em torno dessas cortes simbólicas, e a combinação entre a calunga, o cortejo e o vínculo com os terreiros faz dessa manifestação um espaço de ancestralidade — um momento em que o próprio Carnaval se reveste de devoção.
O maracatu rural, por sua vez, traduz a criatividade de quem vive do trabalho na cana: o caboclo de lança, pela força física e pelo visual exuberante que exibe, costuma ser lido como guerreiro protetor — e essa brincadeira fortalece vínculos de vizinhança em regiões historicamente marcadas pela desigualdade e pelo trabalho pesado.
Curiosidades
- A cabeleira do caboclo de lança pode reunir milhares de tiras de celofane e pesar bastante sobre os ombros de quem a usa.
- O cravo branco levado na boca por esse personagem é associado, segundo algumas explicações, a uma forma de proteção espiritual.
- Tanto o maracatu nação quanto o de baque solto integram hoje a lista de bens que o IPHAN reconhece como patrimônio cultural imaterial do país.
- O maracatu se tornou um dos símbolos culturais mais associados a Pernambuco, presente em boa parte da imagética do Carnaval do Recife.
Fontes de referência
- César Guerra-Peixe, Maracatus do Recife (1955)
- Katarina Real, O Folclore no Carnaval do Recife (1967)
- Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
- Mário de Andrade, Danças Dramáticas do Brasil (publicação póstuma, 1959)
Este verbete foi redigido de forma original, com base na literatura folclorística disponível sobre o tema. Encontrou alguma imprecisão ou conhece uma versão diferente desta história? Envie uma sugestão.
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