Lenda · Local

Salamanca do Jarau

Também conhecido(a) como A Salamanca, Teiniaguá e Cerro do Jarau

Lenda sul-rio-grandense que narra os desafios enfrentados dentro de uma gruta mágica escondida no Cerro do Jarau, moradia da Teiniaguá — princesa moura metamorfoseada em lagartixa guardiã de tesouros.

Comparar versões

Narrativa da tradição oral. O texto a seguir registra uma lenda ou tradição do folclore brasileiro tal como ela chegou pela transmissão oral, pela crença popular e pela memória coletiva — não como um relato de fatos historicamente comprovados, mas como patrimônio cultural digno de ser preservado. Em algumas versões, esta narrativa muda de contornos: ao todo, 3 versões diferentes aparecem reunidas abaixo.

Origem

Poucas lendas são tão conhecidas no Rio Grande do Sul quanto a Salamanca do Jarau, que ganhou forma definitiva na pena de João Simões Lopes Neto, publicada em Lendas do Sul (1913). Toda a ação se passa no Cerro do Jarau, morro que se ergue nas proximidades de Quaraí, não muito distante da linha que separa o Brasil do Uruguai. Partindo de tradições orais da campanha gaúcha, o escritor deu ao relato uma forma literária elaborada, que se tornaria a referência mais conhecida dessa história.

A palavra “salamanca” remete a uma antiga tradição ibérica: contava-se, na Espanha e em Portugal, que grutas da cidade de Salamanca abrigavam o ensino de artes mágicas, e o termo passou a nomear covas encantadas, onde se aprendia feitiçaria ou se firmavam pactos sobrenaturais. Essa noção chegou às Américas trazida pelos colonizadores, difundindo-se por toda a região do Prata, onde o termo “salamancas” nomeia, até hoje, lugares de encantamento em lendas do sul do Brasil, do Uruguai e da Argentina.

A esse legado europeu somaram-se elementos indígenas e o universo das reduções jesuíticas. A Teiniaguá — lagartixa com uma pedra luminosa na cabeça — associa-se ao carbúnculo, ser brilhante das lendas platinas, e o próprio enredo traz a figura de um sacristão ligado às missões. O resultado é uma narrativa mestiça, representativa da fronteira gaúcha.

Descrição

Tal como Simões Lopes Neto contou, uma jovem princesa de origem moura, natural da Espanha, converteu-se na Teiniaguá, lagartixa encantada que ostenta, no lugar da cabeça, uma pedra de fogo conhecida como carbúnculo. Um sacristão encontrou-a numa lagoa, escondeu-a dentro de uma guampa com água e, enfeitiçado por ela, passou a negligenciar suas obrigações religiosas. Descoberto e condenado, foi salvo pela própria Teiniaguá, e ambos buscaram refúgio no interior do Cerro do Jarau.

Ali nasceu a salamanca: uma furna repleta de riquezas e encantamentos, cuja entrada era vigiada pelo próprio sacristão, já envelhecido e preso ao feitiço. Tempo depois, um peão pobre e honesto, de nome Blandino, encontrou-o nas proximidades do cerro. O sacristão propôs-lhe entrar na salamanca e enfrentar sete provas, repletas de feras, esqueletos, fogo e tentações de toda espécie.

Blandino superou, com destemor, cada uma das sete etapas; ainda assim, declinou do ouro e dos poderes sobrenaturais que lhe ofereciam, desejando apenas ficar perto da Teiniaguá — pedido que não lhe foi atendido. Recebeu, em troca, uma moeda de ouro mágica, capaz de se multiplicar, mas que só lhe trouxe desconfiança e infortúnio. Ao devolvê-la, esse gesto de renúncia rompeu finalmente o encanto: tanto o sacristão quanto a jovem transformada recuperaram a liberdade, enquanto o próprio morro, dizem, tremeu de ponta a ponta, como se a gruta mágica se desfizesse por dentro.

Características

  • Ambientada no Cerro do Jarau, próximo a Quaraí (RS)
  • Teiniaguá: princesa moura transformada em lagartixa encantada
  • Carbúnculo, pedra luminosa que substitui a cabeça do ser
  • Sete provas de coragem enfrentadas no interior da furna
  • As riquezas mágicas trazem infortúnio a quem as deseja
  • Combina tradições ibéricas, indígenas e das antigas missões jesuíticas

Versões da história

Como ocorre com toda narrativa transmitida oralmente, esta história se transforma conforme quem a conta e o lugar onde é contada; reúnem-se abaixo as versões mais conhecidas.

Campanha gaúcha, texto de 1913

É a versão literária consagrada, centrada no sacristão, na Teiniaguá e no peão Blandino. Valoriza a honestidade do protagonista, capaz de resistir às tentações da riqueza, e se encerra com a quebra definitiva do feitiço que prendia o sacristão e a princesa.

Ver as versões lado a lado

Significado cultural

A Salamanca do Jarau propõe uma reflexão sobre ambição e honestidade. Blandino encarna o gaúcho pobre, porém íntegro, capaz de vencer o medo e recusar a riqueza obtida sem esforço. A moeda que se multiplica, mas traz infortúnio, sugere que o ouro conquistado por meios mágicos corrompe, ao fim, os laços humanos.

A lenda funciona também como retrato da formação cultural do Sul do país: soma a herança peninsular das grutas de encantamento e das figuras mouriscas enfeitiçadas à memória das reduções jesuíticas e a elementos das tradições indígenas regionais, evidenciando como diferentes matrizes culturais compuseram o imaginário da fronteira gaúcha.

Curiosidades

  • Estudos geológicos já avaliaram se o Cerro do Jarau não resultaria do impacto de um corpo celeste em tempos remotos.
  • Na literatura, Érico Veríssimo deu nova vida à Teiniaguá dentro do romance O Tempo e o Vento.
  • No espanhol falado na região platina, “salamanca” passou a designar covas ou grutas encantadas.
  • O mesmo volume Lendas do Sul reúne ainda O Negrinho do Pastoreio e A Mboitatá.

Fontes de referência

  1. João Simões Lopes Neto, Lendas do Sul (1913)
  2. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
  3. Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros (1947)
  4. Walter Spalding, estudos sobre lendas gaúchas

Este verbete foi redigido de forma original, com base na literatura folclorística disponível sobre o tema. Encontrou alguma imprecisão ou conhece uma versão diferente desta história? Envie uma sugestão.

Verbetes relacionados

Verbete aleatório

Criatura · Sul, Sudeste e Nordeste +

Boitatá

Serpente incandescente de olhos enormes que, segundo a crença popular, percorre os campos durante a noite — ora zelando pelas matas contra o fogo…

Personagem · Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste

Mãe do Ouro

Guardiã das antigas zonas de mineração, a Mãe do Ouro surge como bola de fogo ou mulher radiante que protege os veios do metal precioso e pune quem…

Personagem · Sul

Negrinho do Pastoreio

Menino sem nome, escravizado e vítima da crueldade de um estancieiro, que a tradição gaúcha devolve à vida sob a proteção de Nossa Senhora…

Lenda · Sul

Naipi e Tarobá

Mito que atribui a origem das Cataratas do Iguaçu ao furor da serpente M’Boi, desencadeado quando os amantes Naipi e Tarobá decidem escapar juntos.

Personagem · Nordeste

Alamoa

Em Fernando de Noronha, conta-se a história de uma mulher de beleza clara e arrebatadora que se oferece nua aos homens solitários e os conduz ao…

Criatura · Sudeste, Sul e Centro-Oeste +

Mula sem Cabeça

Castigo que, segundo a crença popular, transforma uma mulher ligada a um padre em besta sem cabeça, lançando chamas pelo pescoço nas noites de quinta…