Personagem · Conhecida em todo o país

Saci-Pererê

Também conhecido(a) como Saci, Saci-Cererê, Matimpererê, Saci-Trique e Saçurá

Figura de uma perna só, gorro vermelho e cachimbo, que a tradição liga aos redemoinhos e a travessuras como esconder objetos e embaraçar crinas de cavalos.

Comparar versões

Narrativa da tradição oral. O texto a seguir registra uma lenda ou tradição do folclore brasileiro tal como ela chegou pela transmissão oral, pela crença popular e pela memória coletiva — não como um relato de fatos historicamente comprovados, mas como patrimônio cultural digno de ser preservado. Em algumas versões, esta narrativa muda de contornos: ao todo, 3 versões diferentes aparecem reunidas abaixo.

Origem

Poucas figuras do imaginário popular brasileiro ilustram tão bem a ideia de mestiçagem cultural quanto o Saci-Pererê. A crítica especializada costuma apontar como camada mais antiga uma herança indígena, de tronco tupi-guarani, relacionada a um espírito do mato cujo assobio enigmático remetia a determinada ave. Não por acaso, em diversas regiões do país, a espécie identificada pela ornitologia como Tapera naevia continua sendo chamada, no falar popular, de saci — numa referência direta ao canto que parece não ter origem fixa, ecoando de toda parte.

As camadas seguintes vieram com o deslocamento forçado de populações africanas escravizadas, que imprimiram ao personagem a pele escura, a agilidade e o temperamento zombeteiro que hoje lhe são atribuídos. A matriz europeia, por sua vez, legou-lhe o gorro vermelho — peça que ecoa duendes e trasgos das narrativas ibéricas, nos quais residia justamente no barrete a fonte do encantamento. O cachimbo, acessório corrente na vida rural do interior, veio completar essa composição que se consolidaria como a imagem clássica do ser.

A projeção do Saci para além das tradições regionais tem data e autor conhecidos: no início do século passado, Monteiro Lobato organizou um levantamento que reuniu depoimentos de leitores de diferentes partes do Brasil publicados n'O Estado de S. Paulo, dando ao personagem contornos relativamente estáveis. Posteriormente, sua presença nas aventuras do Sítio do Picapau Amarelo consolidou-o no repertório afetivo de sucessivas gerações de leitores infantis.

Descrição

A tradição retrata o Saci como um garoto de perna única, pele escura, que veste um gorro vermelho e não dispensa o cachimbo. Deslocando-se em saltos de velocidade surpreendente, ele costuma viajar — segundo diversos relatos — no interior dos redemoinhos que levantam poeira e folhagem seca pelas estradas rurais. Sua chegada e sua partida seriam igualmente súbitas, anunciadas por um assobio fino e por um riso de quem prega peças.

O centro de suas narrativas está nas pequenas desordens que provoca no cotidiano: esconder utensílios, deixar a refeição queimar, azedar o leite, embaraçar a linha de costura, perturbar os animais. É particularmente célebre por cavalgar os cavalos durante a madrugada e deixar suas crinas entrelaçadas em nós praticamente impossíveis de desatar, de modo que os bichos amanhecem exaustos e cobertos de suor. Também recai sobre ele a culpa de viajantes que se perdem nas veredas do mato.

Segundo o imaginário popular, é no gorro vermelho que reside o essencial de sua força. Quem conseguir subtrair-lhe a carapuça passaria a tê-lo sob seu domínio, já que ele faria o possível para reavê-la. Outro procedimento tradicional para aprisioná-lo consiste em lançar sobre o redemoinho uma peneira trançada de taquara, prendendo-o depois numa garrafa bem fechada. Diz-se ainda que, para mantê-lo afastado, basta deixar à vista um rosário ou qualquer objeto repleto de nós, que ele se sentirá obrigado a desamarrar.

Características

  • Desloca-se aos saltos, sustentado por apenas uma perna
  • O gorro vermelho funciona como depósito de seus poderes
  • Fuma cachimbo e costuma solicitar fumo a quem passa
  • Desloca-se no interior dos redemoinhos de vento
  • Embaraça as crinas dos cavalos durante a madrugada
  • Provoca pequenas desordens domésticas e esconde objetos
  • Pode ser capturado com o uso de peneira e garrafa

Versões da história

Como ocorre com toda narrativa transmitida oralmente, esta história se transforma conforme quem a conta e o lugar onde é contada; reúnem-se abaixo as versões mais conhecidas.

Norte e interior do Sudeste

Nas leituras de raiz indígena, o saci se aproxima menos da figura infantil e mais de uma presença do mato associada a um pássaro de canto intrigante. Seu assobio desorientaria caçadores e andarilhos, incapazes de localizar a origem do som. Essa concepção dialoga, na Amazônia, com a Matinta Perera, outro ser vinculado a uma ave de mau agouro e a pedidos de fumo.

Ver as versões lado a lado

Significado cultural

Para muitos observadores, o Saci funciona como metáfora da própria formação do povo brasileiro, por condensar num único corpo elementos indígenas, africanos e europeus. Sua esperteza diante dos poderosos também permite uma leitura como forma de resistência bem-humorada, sobretudo se considerado o pano de fundo de um mundo rural atravessado por desigualdades marcantes.

No plano cotidiano, suas histórias davam sentido a pequenos infortúnios — um objeto desaparecido, uma comida estragada, um animal inquieto — e, ao mesmo tempo, ensinavam cautela em relação à mata e à noite. Em tempos recentes, o personagem passou a ser reivindicado como símbolo de identidade nacional, contraposto a figuras estrangeiras incorporadas por outras tradições festivas.

Curiosidades

  • O levantamento conduzido por Monteiro Lobato sobre o Saci é apontado como uma das primeiras pesquisas folclóricas brasileiras a contar com a colaboração direta do público por meio da imprensa.
  • Alguns municípios e estados instituíram datas dedicadas ao Saci no fim de outubro, pensadas como alternativa de caráter nacional a festividades importadas.
  • O nome popular da ave Tapera naevia como saci decorre justamente da dificuldade de localizar a origem de seu canto.
  • Entre as adaptações televisivas do Sítio do Picapau Amarelo, o Saci figura entre os personagens de maior destaque.

Fontes de referência

  1. Monteiro Lobato, O Saci-Pererê: resultado de um inquérito (1918)
  2. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro (1954)
  3. Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros (1947)
  4. Monteiro Lobato, O Saci (1921)

Este verbete foi redigido de forma original, com base na literatura folclorística disponível sobre o tema. Encontrou alguma imprecisão ou conhece uma versão diferente desta história? Envie uma sugestão.

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